Entrevista com o Presidente e o Vice-presidente da primeira Associação de Estudantes de Universidade de Aveiro

Quisemos saber o que fazem, como era a Universidade de Aveiro na altura e como nasceu a AAUAv.

Aqui ficam alguns excertos da longa conversa que tivemos com o Presidente José Oliveira Cruz e o seu Vice Hélder Monteiro.

UniverCidade - Como surgiu a Associação de Estudantes da Universidade de Aveiro?

Hélder Monteiro (vice-presidente) - Foi, essencialmente, fruto da altura, vivia-se uma época muito conturbada na universidade portuguesa, embora Aveiro, pela experiência que nós temos, nunca foi uma universidade que se metesse muito em "cavaladas". Apesar de haver muita gente na altura que queria partidarizar as listas. Nas primeiras eleições concorreram duas listas e que eram formadas por pessoas de diversos quadrantes, desde o CDS ao PCTP-MRPP, passando pelo FEC-ML, Partido comunista, etc. O Tibúrcio, Presidente da Mesa, era filiado na UEC e fez muitas RGA's onde propunha greves de solidariedade para com o povo da Roménia, Checoslováquia e coisas tais, mas nunca teve grandes resultados. Cá em Aveiro sempre houve uma grande independência relativamente a esses assuntos, nós estávamos preocupados era com os problemas dos estudantes, as condições na cantina, os pequenos almoços, etc.

José Cruz (presidente) - Antes de responder a essa pergunta eu gostava de dizer aqui duas coisas relativamente à lista. Fico satisfeitíssimo e tenho muito orgulho em ter sido o primeiro presidente da Associação de Estudantes da UA e eleito democraticamente numa lista onde as pessoas se pautavam por um trabalho em prole da comunidade universitária estudantil, que era aquilo que na altura de exigia.
Por isso é que, numa época em que, efectivamente existia uma comissão instaladora da AEUA, mas que não lutava pelos anseios dos estudantes, se fizeram eleições em Julho, apesar de não ser habitual realizar eleições em fim de ano escolar. Mas era uma necessidade. Apareceram duas listas: a lista A (a nossa) e a Lista B, listas essas às quais agradeço, pelo facto de terem decorrido as primeiras eleições num ambiente estudantil, são, sem qualquer agressividade e aonde estavam pessoas a quem nunca perguntamos se eram do partido A ou B, pois isso não interessava.
As pessoas da nossa lista eram um conjunto de pessoas que nós entendemos que eram os melhores que poderiam defender unidos os interesses dos estudantes. Foi por isso que, na minha lista, fizemos um trabalho que eu penso que foi óptimo, pois nunca nos pusemos debaixo da canga de nenhum partido. A nossa bandeira era a bandeira da Universidade.
Perguntavam-nos: "Mas como é que vocês conseguem trabalhar, se umas são de esquerda e outros de direita'?" e nós respondíamos: "o nosso interesse só é um... é lutar pelos interesses dos estudantes".

H.M. - O que não era prática na sociedade portuguesa da altura, que estava extremamente radicalizada, partidarizada.

J.C. - 0 que aconteceu em Aveiro não acontecia na altura em Coimbra. Em Aveiro fez-se isto... uma lista de pessoas de todos os quadrantes políticos. E o mais engraçado é que nossa lista que tinha três partes, Direcção, Conselho Fiscal e Mesa da RGA, a direcção era constituída por dez elementos, mas dos dez elementos haviam três suplentes, e sete efectivos, só depois da lista ganhar é que se elegeu o presidente.

UniverCidade - Quais foram as dificuldades tidas na criação da AEUA?

J.C. - Na altura as nossas instalações eram uma pequena sala num edifício na Mário Sacramento (Actual Residência Feminina), que ficava por cima da secretaria geral e no piso de cima ficava o Reitor. Uma das primeiras coisas por que lutamos foi tomarmo-nos independentes. A AEUA nem sequer tinha um telefone, não tinha dinheiro, não tinha nada. Nós tínhamos dois objectivos: O primeiro era criar condições para que os estudantes pudessem estar condignamente na Universidade de Aveiro, uma das preocupações foi criar boas condições ao nível dos serviços sociais, em termos dos estudantes de fora e que tinham dificuldades até monetárias, para eles criamos "packs" de pequenos-almoços e lanches. Os estudantes podiam comprar por 5 escudos um pequeno-almoço, bica incluída. Outro objectivo era realmente organizar a associação de estudantes, que passava pela parte estatutária e passava também pela parte das instalações, dirigimo-nos à Câmara, na altura o presidente de câmara era o Dr. Girão Pereira, e solicitamos que nos arranjassem instalações.

H.M. - Chegou-se a por a hipótese do primeiro piso da casa de chã, no parque. Só que era complicado pois o parque fechava a uma determinada hora e nós precisávamos de um sitio onde os estudantes pudessem entrar a qualquer hora.

J.C. - A casa chegou a ser-nos cedida e isso para nós foi uma grande vitória, poder dispor de um sitio para sede gratuitamente. Mas nós queríamos era uma sala disponível 24 horas por dia e então arranjou-se uma cave na rua do príncipe perfeito, cedida pelo Dr. Feliz dos serviços sociais, que tinha uma casa de banho, um escritório e uma sala ampla.

H.M. - O primeiro orçamento que fizemos, que eu nunca mais me esqueço, era um número redondo, duzentos contos para comprar tudo: secretárias, mesas de ping-pong, cartas, uma máquina de escrever, etc.
Estas foram as nossas preocupações... por isso não houve muitos obstáculos, mas houve alguns, o Reitor não estava habituado a ter uma associação de estudantes, apesar de não ter razões de queixa dele,... e conseguimos algumas coisas.
Nessa altura chegamos a fazer protocolos para utilização dos pavilhões desportivos e mais tarde da piscina por parte dos alunos.
Ainda houve algumas guerras, e houve alguns mal entendidos entre nós e os professores.

J.C. - Chegamos a fazer um baile, aliás, urna festa-convívio, no hall dos "galinheiros" sem o conhecimento do Reitor, e que deu uma tremenda bronca. Fizemos aquilo para arranjar uns dinheiritos para as actividades da associação, o serviço de bar tinha de dar qualquer coisa. Falamos com o Director dos serviços sociais e dissemos que íamos fazer aquilo e ele perguntou: "mas já têm autorização do Reitor?" e eu respondi "não se preocupe que a gente trata disso!" mas nunca tratamos! O problema é que houve alguém (provavelmente já com os copos) que usou os cinzeiros grandes como urinol. As senhoras da limpeza, no outro dia foram ao ar...e depois o Reitor... sobrou para nós!

H.M. - Uma outra grande prioridade foi criar tradições académicas cá em Aveiro, pois não havia nada, começamos a aproveitar a brincadeira do enterro do ano para fazermos umas coisas.

J.C. - Conseguimos que o Secretário de Estado do Ensino Superior Dr. Cruz e Silva, que veio acompanhado do Director Geral o Eng. Marçal Grilo, que tinham vindo a Aveiro anunciar a criação do conselho nacional do ensino superior. Reunissem connosco, nessas reuniões abordámos assuntos como a passagem a licenciatura dos nossos cursos, que na altura ainda eram bacharelatos, estágios obrigatórios para os cursos de professores, mercado de emprego para os cursos de ciências do ambiente, bem como um maior apetrechamento da universidade.
A nossa associação teve alguns pontos altos. Teve o facto de ser a primeira associação eleita, conseguimos a organização e estruturação da associação na sua base legal, terceiro a defesa dos estudantes e colocá-los à volta da associação que os defendia, a aproximação aos professores para provar que o medo de haver guerra era infundado.
Tivemos uma reunião em Lisboa onde fomos pedir dinheiro. Nós entramos na associação com praticamente nada e deixamos a associação com sede, estatutos e 200 contos em caixa.

UniverCidade - Que actividades Desportivas e Culturais é que se organizavam na altura?

J.C. - O responsável pelo desporto era o Armando, e pela parte da cultura era a Paula.

H.M. - Núcleos desportivos havia o futebol de 5, o Badminton (com jogos a nível nacional), o Ténis e o Xadrez.

UniverCidade - Como era a vida de um estudante nessa altura?

J.C. - Era terrível, pelo seguinte facto... a universidade era no actual CET e aqui em baixo havia apenas o edifício 1 (galinheiros). Às vezes tínhamos aulas lá em cima e depois vínhamos a correr cá para baixo.

H.M. - Isto foi, em certa altura, um dos pontos de fricção com o Reitor, entretanto inauguraram o edifício aqui ao lado (actual Departamento de Línguas e Culturas). Foi aqui que eu tive aulas com o Mendiratta. Eu era de matemáticas e a nossa cadeira de matemática aplicada era electromagnetismo (3°ano de electrónica). Nós que éramos de matemática íamos "apanhar" com o Mendiratta, que tinha acabado de chegar a Portugal e falava português "perfeitamente" como vocês sabem.
Naquela altura ninguém percebia patavina do que o homem dizia e ainda por cima electromagnetismo, eu não tinha física desde o sétimo ano!

J.C. - O ambiente que se vivia, exemplifica-se, com a relação que na altura se viveu entre as duas listas concorrentes à direcção da AEUA. Pois as pessoas que estavam nas duas listas colaboraram uns com os outros, foi espectacular, nunca me esquece, no dia em que houve eleições havia um colega que andava nas mesas de voto com um garrafão às costas a oferecer vinho ao pessoal. Isto é que é de salutar!
A universidade era uma universidade unida.

UniverCidade - Valeu a pena o tempo que dispensaram à AEUA?

J.C. - A resposta a essa pergunta é valiosa! Vale sempre a pena quando trabalhamos para todos e quando sentimos que contribuímos, um mínimo que seja, com boa vontade. É um trabalho gratuito, foi um trabalho em defesa de todos os estudantes da universidade, um trabalho para dignificar a própria universidade e para dignificar o próprio conselho de Aveiro. Em causa estava uma universidade que tinha poucos anos de vida, na altura (77/78) a população estudantil estimava-se nos 1500-2000 alunos, quatro vezes menos que a actualidade.

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