Zeca Afonso - O Aveirense músico e poeta intervencionista

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu em Aveiro a 2 de agosto de 1929. O músico nasceu no Largo das Cinco Bicas e aí permaneceu nos primeiros tempos da sua infância, mesmo quando os seus pais foram para Angola.
Desde muito novo, alistou-se na Mocidade Portuguesa, por influência do seu tio salazarista.
Depois de uma infância dividida entre Aveiro e Moçambique, Zeca Afonso assenta as suas raízes em Coimbra onde prossegue os estudos. Em 1945, ainda nos seus tempos de liceu, começa a cantar serenatas na condição de «bicho» (designação da praxe de Coimbra para os estudantes liceais). Inicia-se, assim, na vida de boémia e fados de Coimbra. Faz várias apresentações integrando o Orfeão e a Tuna Académica da Universidade de Coimbra.
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras com 11 valores. A música foi, sem dúvida, a sua grande paixão. No ano de 1963 já tinha vários EP's gravados, com alusões à cidade de Coimbra. Em Abril de 1964, José Afonso actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para uma das suas mais famosas composições: «Grândola, Vila Morena».
Ao longo da sua vida, Zeca Afonso revela-se um homem muito ligado às questões de foro social e político, estando sempre atento às crises estudantis.
O músico fica impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado e em 1969, após as perspectivas de organização de um movimento sindical, participa no movimento assim como nas constantes manifestações de estudantes em Coimbra.
Em 1970, o álbum «Traz outro amigo também» foi vítima de algumas restrições, pois Rui Pato, um dos músicos, foi impedido pela PIDE de viajar até Londres, local escolhido para as gravações. A par disso, muitos dos seus espectáculos foram proibidos pela PIDE/DGS, acabando por ser preso em 1973, durante um período de 20 dias, em Caxias. Na prisão política, escreve o poema «Era um Redondo Vocábulo». Nesse mesmo ano, publica o «Venham mais cinco».
No ano de 1974, enche o Coliseu de Lisboa, onde termina a sessão com «Grândola, Vila Morena». Entre a plateia estavam militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) que escolheram «Grândola» para ser a senha do derrube do regime ditatorial. Dentro de algumas das composições do músico que tinham sido vítimas de censura, curiosamente, «Grândola, Vila Morena» era autorizada. Nos anos seguintes, faz parte de movimentos populares como o PREC (Processo Revolucionário Em Curso), no movimento revolucionário LUAR e em 1976 apoia a candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho à presidência. O seu álbum «Enquanto há força», editado em 1978 com a parceria de Fausto, serve de mais um exemplo da sua fase de cronista-cantor, revelando as suas inquietações anti-coloniais, anti-imperialistas e religiosas.
Em 1986, já em fase terminal de doença, apoia a candidatura presidencial de Maria de Lurdes Pintassilgo.
A cidade de Coimbra atribuiu-lhe a Medalha de Ouro da Cidade e, posteriormente, Ramalho Eanes atribui-lhe a Ordem da Liberdade, contudo José Afonso recusou. Anos mais tarde, Mário Soares tentou condecorá-lo, postumamente, mas a esposa não aceitou, visto o marido não o ter desejado em vida. Zeca Afonso morre no dia 23 de Fevereiro de 1987. O funeral contou com a presença de 30 mil pessoas, entre elas ilustres figuras como Sérgio Godinho, Júlio Pereira e Mário Branco.
Após a sua morte, foi criada a Associação José Afonso, com o objectivo de ajudar a pôr em prática as ideias do compositor. Hoje, perto da data de comemoração do Dia da Liberdade, faz todo o sentido lembrar-nos com apreço e orgulho, um dos mais importantes ícones do movimento revolucionário que sempre se interessou pelas causas sociais, movimentos em prol de valores como a igualdade, a liberdade e a justiça. Grande parte da sua composição musical foi de intervenção, criticando principalmente o Estado Novo, regime ditatorial em vigor em Portugal de 1933 a 1974.

Um bem-haja a uma grande figura da nossa cidade!

Zeca Afonso, o aveirense e poeta intervencionista (1)
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